O turismo culinário não se limita mais às mesas estreladas nem aos circuitos de degustação organizados. Segundo a GetYourGuide, as reservas de visitas culinárias aumentaram 24% no ano de 2026, impulsionadas por um público que busca menos o restaurante gastronômico e mais o lanche inusitado, o biscoito regional ou a confeitaria artesanal vendida em uma mercearia de bairro. Essa mudança redesenha o mapa da viagem gastronômica.
Snackmaxxing: quando as iguarias locais se tornam o motivo da viagem
A GetYourGuide identifica uma tendência chamada snackmaxxing, a busca pelos melhores petiscos e doces locais como a principal razão para a viagem. O Kit Kat de matcha trazido de Tóquio, os biscoitos de gergelim de um mercado tunisiano ou as barras de chocolate regionais escandinavas não são mais lembranças secundárias. Eles se tornam o objetivo da estadia.
Esse fenômeno é explicado pela visibilidade das redes sociais, onde um vídeo sobre um lanche japonês ou um doce mexicano pode gerar milhões de visualizações em poucas horas. Os viajantes reproduzem então a experiência no local, com a lista de compras em mãos. Os catálogos de especialidades disponíveis em monde-gourmandises.net refletem, aliás, essa diversidade crescente de iguarias provenientes de todos os continentes.
Os relatos de campo divergem sobre a durabilidade dessa tendência. Alguns profissionais do turismo veem isso como uma moda ligada aos algoritmos, enquanto outros acreditam que a curiosidade alimentar se enraíza em um movimento mais profundo de redescoberta dos terroirs e dos saberes artesanais.

Supermercados e mercearias: o novo destino gastronômico
Os conteúdos concorrentes se concentram nas sobremesas emblemáticas (pastel de nata, tiramisu, baklava). Eles ignoram um fenômeno documentado pela GetYourGuide: a humilde mercearia se torna um destino de viagem gastronômica ao mesmo nível que os mercados ou restaurantes.
Concretamente, viajantes dedicam meio dia a percorrer as prateleiras de um supermercado em Seul, Istambul ou Cidade do México. Eles buscam chips saborizados que não encontram em casa, refrigerantes regionais, manteigas de terroir ou biscoitos industriais cujo sabor não tem nada a ver com as versões exportadas.
O que se revela em uma prateleira de supermercado estrangeiro
A prateleira de um supermercado conta uma cultura alimentar que o restaurante filtra. As porções individuais, as embalagens, as combinações de sabores (wasabi-nori em crackers no Japão, páprica defumada em chips na Hungria) revelam os hábitos diários de um país. É uma forma de etnografia comestível, acessível sem reserva ou orçamento elevado.
Essa abordagem funciona particularmente bem em países onde a gastronomia de rua já é reconhecida. Na Tailândia, na Coreia do Sul ou no México, a transição do mercado de rua para a prateleira do convenience store prolonga a exploração culinária sem ruptura de registro.
Terroirs europeus: além das sobremesas icônicas
A Europa continua sendo um destino importante para a viagem culinária, mas os percursos se diversificam. Na França, a Alsácia e a Bretanha atraem por razões diferentes:
- A Alsácia combina um patrimônio vitivinícola denso (vinhos brancos, crémants) com especialidades doces e salgadas (bredele, kougelhopf) raramente exportadas fora do período de Natal
- A Bretanha aposta na manteiga salgada, nas crepes e nos caramels artesanais, mas também em uma indústria de biscoitos local que fornece produtos muito diferentes de suas versões industriais nacionais
- A Itália do sul, menos coberta que a Toscana ou a Emília-Romanha, oferece doces à base de ricota e cítricos que não viajam (sfogliatella, cassata) e são descobertos quase exclusivamente no local
Esses terroirs compartilham um ponto em comum: as iguarias mais interessantes são aquelas que não se exportam. Sua fragilidade, sua curta durabilidade ou sua ligação com um saber-fazer local as tornam impossíveis de encontrar em outros lugares.

Sabores da Ásia e da África: iguarias ainda pouco documentadas
O mochi japonês e o baklava turco já ocupam os rankings online. Outras especialidades permanecem sub-representadas nos guias francófonos.
Sudeste Asiático e confeitaria de arroz
O Vietnã, a Tailândia e as Filipinas produzem doces à base de arroz glutinoso, leite de coco e frutas tropicais que variam de uma província para outra. No Vietnã, os kẹo dừa (doces de coco de Bến Tre) são um exemplo de iguaria regional cuja receita muda conforme a oficina que os fabrica. Cada província tem sua variante, e a diferença se percebe no sabor.
África Ocidental e confeitaria de amendoim
O kashata, à base de coco ou amendoim, é consumido na África Oriental. Na África Ocidental, as pastas de amendoim doces e os bolinhos de milhete constituem um patrimônio doce ainda raramente integrado aos circuitos de turismo culinário. Os dados disponíveis não permitem medir a extensão dessa oferta turística, mas as plataformas de reserva começam a listar experiências culinárias em cidades como Dakar ou Acra.
O que o mercado do turismo culinário revela sobre nossos hábitos
A viagem gastronômica não é mais um nicho reservado a gourmets experientes. A busca por sabores locais e especialidades regionais agora estrutura uma parte significativa das escolhas de destino. As iguarias, os petiscos e as sobremesas artesanais funcionam como marcadores culturais compactos, fáceis de compartilhar (em foto como em mala).
O critério que distingue uma verdadeira viagem culinária de uma simples refeição no exterior muitas vezes está na abordagem: buscar o que não está no mapa turístico, entrar na mercearia em vez do restaurante, provar o que os habitantes comem no dia a dia em vez do que colocam na vitrine. É nessa diferença que se encontram as iguarias mais memoráveis.



